A chegada da energia eléctrica ao Soutocico (1958) foi algo extraordináro que envolveu não só as chamadas forças vivas da aldeia mas praticamente toda a população. Num grande aparato, aquela noite mágica de lua nova ia receber o Sr. Governador Civil, João Ferreira Dias Moreira, para proceder à inauguração da cabine que forneceria a luz eléctrica ao povoado. Antes de cortar a fita, pegou na pequena Maria Alice ao colo e osculou-a, enquanto esta, envergonhada, lhe depositava um ramo de flores nas mãos. A Filarmónica do Senhor dos Aflitos aguardava a chegada do grupo etnográfico local, fardado a rigor, que descia do Terreiro cantando em coro a marcha do Soutocico. Agora sim, tinha chegado o momento há tanto ansiado. Encavalitado nos ombros do meu avô Joaquim, eu não perdia pitada da ocorrência. E quando a ilustre figura, perante o olhar curioso dos presentes, deu ordem ao electricista, este levantou o disjuntor ouvindo-se um grito uníssono de espanto. Parecia dia claro! Na realidade, o povo estava tão habituado à escuridão que a diferença era abissal. Os candeeiros da rua e as casas já dotadas de instalação eléctrica, inundavam o ambiente com uma fantástica e nunca antes vista claridade nocturna.
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