Ainda não foi há muito tempo que nos obrigaram a trocar o rosto por máscaras envenenadas de saliva, fumo e tosse expectorante, desfigurando faces bonitas onde apenas os olhos sorriam, quando as lentes dos óculos embaciados assim o permitiam. Eram rostos conhecidos que as máscaras apagavam, tornando anónimas caras de pessoas amigas em cujas faces era proibido depositar um beijo de cumprimento e, noutros casos, humedecer a boca com um beijo de amor. Todos os rostos a máscara escondeu durante o periodo negro que nos remeteu para as fortes muralhas de silêncio que nos estrangularam a liberdade, durante meses e meses a fio. Ocasiões houve, durante esta fase pandémica, em que mesmo sem a máscara física o rosto adoptava em sua substituição um disfarce de sofrimento. Mas também a máscara que cobre o rosto está associada à dor ou à angústia, quando nos lembramos de rituais africanos, onde o curandeiro se disfarça e invoca os espíritos em danças frenéticas e batuques, na tentativa de salvar a vida de uma criança indígena a enfermar de febres desconhecidas, ou quando outros ritos de natureza satânica levam os devotos dessas seitas a esconderem os rostos, ou ainda quando professam políticas de natureza esclavagista, como é o caso da América, com os fanáticos do Ku Klux Klan a imporem a dor, o martírio e a própria morte.
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